À GAIA

À GAIA
(André L. Soares)
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Chão! Faça alguma coisa
em prol desses teus filhos,
traga uma dose de dor e de martírio
a quem quer que explore
essa pobre gente;
e aos que te semeiam as sementes,
veja se lhes reserva dias melhores.

Chão! Apesar dos frutos e das flores,
eu custo a acreditar
que aqui ficaste inerte,...
ouvindo calado, tanta lamúria.
Por que não te convertes
no lobo dos injustos...
...sugando, aos milhares,
os faustos malfeitores?

Chão! Talvez não seja tarde...
mas de que vale tua piedade
se dada a quem não merece?
Acorda e ouve atento,
todas as tantas preces
das nações carpideiras,
que não suportam mais a exploração.

Então, abre veio em ti,... Chão...
cospe de teus vulcões, agora...
tua raiva em lava, lança fora
e em catarse, erga tua bandeira
em prol dos infelizes.
Rasga tua carne em sismos,
inunda os latifúndios,
engula os edifícios,
devora os palácios,
inova esses espaços,
redesenhando o caos!...
Lança o planeta inteiro no escuro,
contanto que desapareçam os maus,
mesmo que sobrem apenas
cinco ou dez... pessoas puras,
terá valido cada rachadura e ruga
de tua pele... Chão.

Depois, volta a dormir,
por incontáveis eras...
assenta o pó e a poeira...
e por que não?
Os poucos que ficarem,
por certo, saberão
fazer um mundo novo e melhor,
após tua justiça
feita de cataclismos... Chão!
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Escrito por Ipsi Literis às 17h06
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À ESPERA

À ESPERA
(André L. Soares)
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Fim da tarde. O tempo parece mais preguiçoso que de costume. Através do vidro sinto a cidade, sem prestar atenção a detalhes. Impedido estou de perceber as minúcias da beleza à minha frente, pois, se os olhos aqui se encontram, o pensamento há muito bateu em retirada, vagueando longe, atrás do que me falta. De repente, um ranger de ferros de portão; um farfalhar manso junto às árvores; um leve ruído de chave fina que invade e gira a fechadura. Com a porta que se abre o vento traz primeiro, a energia positiva que me anima; depois, o perfume sinônimo de minha ‘anti-solidão’. Ouço o som de pés delicados, quase a flutuarem sobre o tapete da sala. Em mim é festa, como se a Felicidade bailasse ao som da música perfeita. Viro-me em tempo de perceber teu sorriso irradiar o quarto, antes mesmo que tua silhueta se complete sob o umbral. Pronto. Por tua chegada, e após o beijo que trocamos, identifico agora todos os tons, antes inatingíveis, da paisagem que se faz pintura na moldura da janela.
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Escrito por Ipsi Literis às 03h13
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FUGINDO NUMA TELA DE VAN GOGH

FUGINDO NUMA TELA DE VAN GOGH
(André L. Soares)
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Cansado das vãs teorias,
busco a letargia
dos alienados felizes.
Não quero saber da política,
viro às costas ao feio
e à hipocrisia.
Entrego-me à incoerência;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!

Chega de tantas mentiras,
da esperança perdida
da pesada leitura.
Fico à margem dos dias,
da falsa engrenagem
das tristes notícias.
Cedo-me à ignorância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!

Farto das ideologias,
dos beijos de Judas,
das falas prolixas.
Renego as tramas noturnas,
as turvas matizes
e as falácias da vida.
Rendo-me à intolerância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!
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Escrito por Ipsi Literis às 03h10
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AOS SERTANEJOS

AOS SERTANEJOS
(André L. Soares)

1.

Cidade grande é uma ‘belezura’,
com muita obra de envergadura,
tudo lindo, luxento e formoso,
gente correndo que nem formiga,
comendo horrores, criando barriga,
num vai-e-vem supimpa e vigoroso.
Milhões de carros em movimento,
tanto prédio, tanto apartamento,
luzes, vidro, asfalto, cor, cimento,
chegando mesmo a ser assombroso.

2.

Mas nisso tudo há muita tristeza...
gente vivendo em meio à safadeza,
desfrutando do fruto afanado,
homem a explorar um outro homem,
tantos querendo matar a fome,
tanta comida em supermercados.
Tanta gente a se exibir no terno,
com soberba em nível sem igual,
o povo humilde só a passar mal,
a justiça vive em bacanal,
já se tornou a matriz do inferno.

3.

A miséria cresce e se esparrama,
ladrão rico monta e deita cama,
a lei é dura só pra pobretões.
Os alimentos são ruins e caros,
amores são cada vez mais raros,
nas leis mortas, pairam transgressões.
A escola é vil, suja e decadente,
hospitais não curam os doentes,
aumenta só a massa dos carentes,
superlotam-se todas as prisões.

4.

Já na roça o mundo é mais quieto.
Povo aqui não é metido a ‘esperto’.
O caipira é até meio ‘desletrado’,
ganhando a vida sobre o torrão,
arranca um milagre com a mão,
na terra, no boi, no rio e no arado.
Sob o sol que esse povo trabalha,
com foice, enxada, faca e navalha,
tomando pinga e pitando a palha,
corpo há muito tempo calejado.

5.

O tabaréu fala tudo errado,
com os verbo assim, mal colocado,
sem entender metade dos nome.
Porém, não vive só de fantasia...
se amanhã nós te ‘dizê’ ‘– bom dia’,
em nossa casa’ocê dorme e come.
Se ‘bestá’, você vira até parente.
‘Desagradô’, nós diz na tua frente.
‘Home’ do campo é capiau valente...
nós não vive em meio à hipocrisia.

6.

Galo ‘cantô’, nós já ‘estamo’ em pé.
Nossa Senhora tem a nossa fé,
nela buscamos a redenção.
Na procissão tem santo no andor,
nas famílias sobra mais amor,
modismo aqui nem existe não.
Não se é escravo do tal de cinema,
Então nós prefere é as ‘muié’ morena,
nós quer rezar os terço e as novena,
e tocar viola ao luar do sertão.

7.

Mas o caboclo, não é irresponsável.
Nossa labuta, é assaz louvável.
Nós que forjamos a produção,
na roça é que o trigo é semeado,
no pasto é que o novilho é criado,
colhe-se o milho, o arroz e o feijão.
A verdade se apresenta pura...
século após século de bravura,
nós na lida com a agricultura,
desenvolvendo a nossa nação.

8.

Desde a data do descobrimento,
desde o nosso primeiro momento,
planta-se aqui o que essa terra der.
Luta ardente, silente vitória...
ciclo após ciclo em nossa história,
cana-de-açúcar, gado e café,
milho, cacau, soja e algodão,...
uns vivendo’inda na escravidão,
de paga a ‘pê-eme’, de arma na mão
e o sertanejo, forte,... de pé.

9.

Por isso, respeite os homens do campo
e não nos deixe, assim pelos cantos,
sem terra para ‘plantá’ e ‘vivê’.
Nós não morremos pobres bóia-fria
para essa corja podre de Brasília
se ‘amostrá’ às nossas custas na ‘tevê’;
rindo-se à toa do PIB elevado,
mas deixando ali, sempre de lado,
o câncer impune do Eldorado,
ferida aberta no ‘eme-esse-tê’.

10.

Então’ocê, rico barão togado,
professor, médico, ‘adevogado’,
medalhas, pompas pra mais de mil...
quando for sentar-se à santa ceia,
na dispensa farta, sempre cheia,
de fruta, legume, pão e pernil,
saiba que aqui sempre foi o matuto,
jeca, roceiro, leal, roto e bruto,
o honrado e sábio, homem astuto,
que com seu suor, sustenta e alimenta
esse gigante chamado Brasil.
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Escrito por Ipsi Literis às 02h48
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Escrito por Ipsi Literis às 02h39
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